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O tempo e as estações


Manuel Pacheco

Manuel Pacheco (nascido em 31/12/1881, na Ilha de São Miguel, Açores, Portugal, naturalizado brasileiro) aposentou-se na Estrada de Ferro São Paulo & Minas, onde trabalhou durante toda a sua vida. São de seu filho Manuel Pacheco Junior as memórias relatadas a seguir:



“...papai trabalhava no trecho Bento Quirino – Paraíso (São Sebastião do Paraíso), ia e voltava. Às vezes ele fazia o trecho inteiro, então ficava uma semana fora de casa. Quando ele ficava servindo o lado de lá, ele passava a semana lá em São Sebastião do Paraíso, aí vinha até Altinópolis, voltava... e assim por diante. E assim... depois então de muitos anos, aí ele parou de viajar, já estava com uma idadezinha, meio cansado, ele foi ser chefe do armazém de café em Bento Quirino. E

naquela ocasião, a companhia puxava muito café daquela região de Altinópolis para baixo, sabe... então acontecia o seguinte: a bitola da São Paulo & Minas era de 60 cm só ... o trem chegava ali em Bento Quirino... aí aquela sacaria de café tinham que ser transferida para os vagões da Mogiana, que tinha a bitola de um metro. E ia embora... Outra coisa: aí acontecia o seguinte: quando chegava em Campinas tinha que passar para os vagões da estada de ferro Paulista, que tinha a bitola de 1,60m! Veja que coisa! Depois, então... com o passar do tempo a São Paulo & Minas alargou as bitolas para 1m também e aí igualou com a Mogiana. A bitola da Mogiana tem 1m até hoje. A baldeação da Mogiana para a Paulista é para 1,60m... a estabilidade do trem é outra coisa... “


A história de Manuel Pacheco na ferrovia


“...ele trabalhou 40 anos na ferrovia! Ele foi dos primeiros funcionários da São Paulo & Minas com a incumbência do Estado. Antes era particular, pertencia a uns ingleses... era de uns ingleses a São Paulo & Minas... e a bitolinha dela era de 60 cm. Depois que foi aumentada para 1m, o tráfego com a Mogiana ficou melhor porque o vagão de café vinha e dali era só mudar para a linha da Mogiana e ir embora...”


“...ele era chefe de trem... tinha aquele quepe... naquele tempo tinha o trem de passageiros... ele tinha o terno azul marinho dele... cheio de galões... bonito! Com o tempo ele avançou na idade, ele deixou de viajar, recebeu a chefia do armazém e então ele não precisou mais ficar viajando, passar tanto tempo fora de casa assim que foi... ele ficou 40 anos na São Paulo & Minas!


A vida do ferroviário era engraçada... o pessoal do ficava uma semana fora e uma semana em casa... vai e volta, vai e volta... mas aí, depois de um tempo o papai já se aposentou... mas teve um tempo, em que eu servia na tesouraria com o Fausto Pires... e no dia do pagamento a gente ia no trem, pagando ompessoal da linha... e então, numa das primeiras viagens, ao encontrar as pessoas, elas perguntavam: “o senhor é funcionário novo?”... “sim, sou filho do Manezinho Pacheco...” “Ah! o seu Manezinho!” E as mulheres exclamavam: “Ah! O filho do seu Manezinho!” ... Isto porque a bondade de meu pai era a seguinte: o pessoal da linha não tinha onde fazer compra. Então tudo, até um carretel de linha as mulheres encomendavam para o meu pai... Meu pai chegava e comprava e no dia seguinte ele levava o carretel de linha! Então era desse jeito... Ele era muito bondoso... ele achava que nesse mundo um tinha

que ser irmão do outro... fazer o que pode para as pessoas, não é?”


“... ele era espirituoso... gostava de contar umas piadas e dava risadas... era muito sociável... tinha muitos amigos... um deles era amicíssimo...o Teodoro Putz, um alemão. Dono de uma fazenda do trecho da São Paulo & Minas, uma parada chamada “Fradinhos” (que o Putz falava “frradinha”. Então, quando o Putz viajava e chegava no trem da São Paulo & Minas de tardezinha, tinha que ficar esperando o trem noturno para ir para São Paulo. Papai levava o Teodoro Putz lá para casa, para jantar e esperar o trem... O Teodoro Putz era um homem distinto e inteligente... muito agradecido ao meu pai...ficou muito amigo do papai, aquele homem... ele era alemão... austríaco, ele era!”



O trajeto do trem


“...no trajeto do trem tinha muito lugarejo, muita fazenda... Saia de Bento Quirino, passava na Santa Maria... não tinha estação... a gente chamava de “chave”... tinha uma plataforminha, não tinha estação... chamava de “chave”... parava, trocava a “chave”, que é a mudança de rota... de trilhos... ali era um ponto de “chave”...a Santa Maria era uma fazenda muito grande, de café, dos Louzada... depois dali vinha Tamanduazinho, que era de um alemão, Serra Azul, que era a cidade próxima lá, depois Serrinha (Serrinha de São Paulo, porque tinha uma Serrinha na Sorocabana também, então falava-se Serrinha de São Paulo)... essa Serrinha... ali era o entroncamento... ali tinha um desvio que ia para Ribeirão Preto e outro ia direto para São Sebastião do Paraíso... depois tinha Águas Virtuosas, que também era fazenda, depois Fradinhos, Mangueiro, Altinópolis, Congonhal, Cobiça, Antonio Justino, José Honório e São Sebastião do Paraíso... todos lugarejos... Serra Azul era cidadezinha... o trem levava passageiro e carga... café...”



Oportunidade de trabalho, formação da família


“...o papai aposentou depois de 40 anos de trabalho na São Paulo &Minas, 40 anos! E foi um dos três primeiros funcionários contratados! Dos três primeiros, ele era um deles! Ele entrou quando a Ferrovia foi fundada, foi quando começou a funcionar pelo Estado. Foi um diretor para Bento Quirino... os trilhos já estavam prontos, já tinha uma oficina para fazer vagões e tudo... então começou a funcionar... então o papai e ele e mais o Simão... papai era bem jovem... solteiro... A mamãe trabalhava em Bento Quirino...Então casaram... Eles eram da Santa Maria... que ficava a uns 10km de Bento Quirino... era umafazenda de café... Era lá que a mamãe morava...ele trabalhava e conheceu a mamãe lá... mas aí eu me lembro que a gente ia... quando eu viajava lá uma vez por mês, para uma inspeção ou um pagamento, o pessoal sempre falava “seu Manezinho, seu Manezinho era um homem muito bom”...



Rita de Cássia Pacheco Limberti

Redatora dos relatos orais das memórias, filha de Manuel Pacheco Júnior.

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