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Carta à Ancestral

“Cultura é tudo aquilo de que a gente se lembra após ter se esquecido do que

leu. Revela-se no modo de falar, de sentar-se, de comer, de ler um texto, de

olhar o mundo. É uma atitude que se aperfeiçoa no contato com a arte.

Cultura não é aquilo que entra pelos olhos, é o que modifica seu olhar.” (José

Paulo Paes)



Querida bisavó Annunciata Nardini Zerbetto!


Talvez chore ao ler estas linhas que contêm os meus sentimentos mais profundos, que lembram episódios de sua vida que me movem, sorrateiros, em direção à minha própria história, e que se revelam como os momentos mais significativos de nossas vidas distantes e – por que não dizer – juntas. Não se intrigue com como esta carta chegaria até suas mãos... afinal, todas as suas coisas chegaram até mim... O conteúdo da carta é o conteúdo do ser humano...



ela sou eu/eu sou ela

A senhora não me conheceu. Não a conheci pessoalmente, vovó Annunciata... vi algumas fotos, ouvi algumas histórias... Mas a forte sensação de conhecê-la é de outra ordem... vem de uma inquietação incompreensível diante de miudezas cotidianas, de meu jeito de viver os dias, meus gestos, gostos e atitudes marcantes e inexplicáveis. Na busca de mim mesma e na

ânsia de encontrá-la, percorro o caminho inverso nas pegadas de minha mãe e de minha avó, que a trouxeram até mim e me levam, hoje, ao seu encontro.


Alumiam o caminho os flashes de memória cintilantes: a casa da vovó Trieste com as paredes pintadas com rolos artísticos, os congóleos no chão, o seu quarto, a cama patente em que muitas noites eu dormia e de onde eu adorava ouvir o apito da litorina, o apito do guarda-noturno sr. Matias e as badaladas do sino da igreja. Um aconchego uterino a vovó Trieste era capaz de imprimir àquela casa simples, onde eu me sentia completamente feliz...


Encontro as pegadas de minha mãe... entrego-me, rendida, à saudade dela... estou em seu colo, como um menino Jesus... ela não me fita... entretanto, como a Madona, segura docemente a minha mão... Seu olhar fita o horizonte, o porvir, aquilo que só ela poderia vislumbrar em meu futuro. Sua mão marmórea que segura a minha contém o calor que preciso para continuar. Nem a sua mama macia e perfumada me foi tão importante como a sua mão, porque a mama aconchegou-me no lugar de onde eu não queria mais sair e a mão impulsionou-me para meus primeiros passos sem nunca ter deixado de amparar-me.



Vivemos em parte da memória... Ou será tudo memória? O presente, presente nosso de cada dia, não sabe nos convencer da importância de seus ela sou eu/eu sou ela acontecimentos. Então, vem o passado tranquilamente (porque não tem pressa) e recolhe as pérolas vividas inconscientemente, sem o saber... O passado é um herdeiro próspero, pois que nada lhe pode escapar. Misteriosamente, contudo, ocultam-se coisas fortuitas, insidiosas, nefastas, funestas... Não sei se lhe escapam ou se ele mesmo esconde. A lembrança, no fundo, é traiçoeira, pois atende, servil, a memória opulenta de uma felicidade imaginária, contando com a cumplicidade ingênua (?) de um sujeito iludido e de boa vontade.


A memória é fina artesã... faz do passado o bel prazer do memorando. E quem irá negar o que ela impõe quando surge impetuosa dos meandros recônditos de nossas emoções? A lembrança disto ou daquilo, que faz arfar nosso peito, já de partida nos desarma de contestações, afinal ela vem de pronto e pronta. Quando tentamos checá-la, ela já se instalou por inteiro. Poderíamos até expulsá-la, mas ela iria embora triunfante depois de nos ter dado o gosto de experimentá-la. Ela conseguiu aparecer... Como se não bastasse, a memória conta com a valiosa colaboração da saudade... A vontade de voltar no tempo, de ser quem fomos (e já não somos), ouvir a voz das pessoas queridas, ver seus rostos, abraçá-las, conversar... ouvir notícias banais, pueris, dramáticas... Então dizermos como sempre dissemos mesmo sem acreditar, para não as preocupar: “está tudo bem!”...



Lembro da mamãe e da vovó Trieste ao me dirigir à senhora, vovó Annunciata! Porque vocês são, para mim, uma única pessoa, talvez reduzida a mim. Sei da sagrada individualidade de cada uma, mas, neste momento sublime que consagro à senhora, estão presentes, fortemente, minha mãe e minha avó... Sei que aos seus olhos sua missão pode parecer pequena - e talvez tenha sido -, mas me mantém diligente e firme em minha crença de que grandes obras não podem pertencer a um único indivíduo - pelo menos não em espírito.


Meu pensamento voa com suas histórias que as ruas de São Simão poderiam contar, de sua longa jornada de navio para o Brasil, sua chegada hesitante, incerta... Perderam-se nas vagas espumosas tantas esperanças e ilusões, algumas secretas, que nunca ninguém conheceu... quem sabe não sou eu a ter algumas delas agora, que vieram ter comigo? Não sei... fito seu rosto no porta- retratos que conheço desde criança. Deslizo os dedos no vidro querendo tocá-la... me sinto humilde, grata. Suspiro, respiro profundamente... O ar que deu à vovó, à mamãe e a mim nosso primeiro inspirar recebeu o seu último suspiro... todas as coisas estão ligadas, como o sangue que une uma família. Há uma ligação em tudo.


Fico em silêncio. Ouço o tique-taque do relógio da sala de jantar que já não funciona há anos. Mesmo assim o tempo não parou. Minhas noites na casa da vovó Trieste foram embaladas por ele e pelo ruído intermitente do motor da antiga geladeira Hotpoint... eu pensava que se o relógio parasse o tempo não passava... e que, se o tempo parasse, a senhora, que estava parada em outro tempo, poderia vir nos alcançar... mas o diligente vovô Pierin nunca deixou de dar corda no relógio...


Sabe, Vovó Annunciata, há pessoas que dizem que as pessoas que partem se tornam estrelas no céu. Acho bonito isso! Mas gosto de pensar que as pessoas são sementes e que se tornam árvores... Porque a semente, que dá a vida, desaparece... mas é ela a própria árvore... ela está no tronco, nos galhos, na seiva que os percorre, nas folhas, nas flores, nos frutos e, nestes, ela reaparece... As folhas são a ponta, o sinal de vida, a mobilidade, a marca e o sinal do tempo, porque elas secam e caem.


Pertenço à sua frondosa árvore, querida vovó, já fui fruto, deixei sementes, sou agora uma folha que já começa a secar... um dia cairei... “sem alarde”... e me juntarei às tantas outras folhas ao lado de suas vigorosas raízes para penetrá-las em forma de húmus. A vida é um impulso avante que nega o seu fim. A vida busca sempre os começos.


Despeço-me, querida vovó... algum dia a gente poderá se encontrar... mesmo sem saber. Encontro-a diariamente (e não sei) em algum gesto repetido ou no meu jeito de menear a cabeça... Este mundo é muito vasto... há muitas árvores, tantas que nem sei... só sei que nunca mais verei uma folha caindo sem me lembrar do tronco vigoroso que me sustenta. Gratidão.


O filósofo Kierkegaard me ensinou que cultura é o caminho que o homem

percorre para se conhecer. Sócrates fez o seu caminho de cultura e ao fim

falou que só sabia que não sabia nada. Não tinha as certezas científicas. Mas

que aprendera coisas di-menor com a natureza. Aprendeu que as folhas das

árvores servem para nos ensinar a cair sem alardes. (Manoel de Barros)


Rita de Cássia A Pacheco Limberti *


*minha gratidão também aos ancestrais que não citei: Vovô Ernerto Zerbetto, Vovô Pedro Toffoli (Pierin), papai Manuel Pacheco Junior, vovó Ana Forancelli, vovô Manuel Pacheco e tantos outros a quem devo tanto: minha vida!

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