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Domingos Sicca

João Jorge (*)



Domingos Sicca

Não é nome de rua e nem de praça. Mas o velho Sicca, na última metade do século passado, foi um personagem marcante na sociedade simonense. Se vivo estivesse, acredito que estaria beirando os 100 anos.


Lembro-me dele trabalhando na Loja dos Montiani. Foi no final dos anos 1950 ou início dos anos 1.960. Aposentou-se lá. Isso era uma característica do Siccão; ele se apegava a tudo que fazia.


Mais tarde, eu e amigos, quando jovens, no final dos anos 1960, íamos às brincadeiras dançantes que aconteciam aos sábados e domingos no Líder Clube. No lugar da banda, havia uma Sonata (toca disco) azul e muitos discos de vinil. Do lado da Sonata, em cima do palco, sentado em uma cadeira de madeira, lá estava o nosso personagem trocando os discos, atendendo aos pedidos de músicas e promovendo um lazer saudável para a moçada de então. Ele sempre foi da diretoria do clube. Trabalhava por prazer e de graça.


Já nos anos 1980, quando substituí Chaffy Jorge na direção do Jornal “O Trabalho”, comecei a trabalhar com o Sicca. Ele era cobrador do jornal. O primeiro impasse ocorreu quando resolvi aumentar o valor anual da assinatura; ele não concordava, dizia que perderíamos assinantes. Não perdemos, ainda bem. Ele gostou. Sempre fez do “O Trabalho” uma das razões do seu viver.


Por outro lado, eu, enquanto diretor de um veículo que na época pretendia romper com o conservadorismo simonense, tentava encontrar um jeito de acabar com a publicação da Coluna de Aniversários, sem melindrar ninguém. Mas sabia também que qualquer mudança nesse formato era muito difícil, principalmente sendo o Sicca o responsável pela coluna. A minha oportunidade surgiu quando vi publicado no jornal de então que o jovem Cláudio Zafanella estava aniversariando no dia tal. Ora, esse jovem, meu amigo até hoje (o Neguinho Zafanella), naquela época já tinha mais de 40 anos. Senti que havia chegado o momento para acabar com a coluna; o erro foi o pretexto. E assim decidi.


No dia seguinte, logo pela manhã, chega o Sicca, muito bravo, dizendo: - Olha João! Eu tenho mais tempo do que você aqui no jornal. Se você acabar com a Coluna de Aniversários eu vou embora e, quero te falar ainda, que a minha coluna é muito mais lida do que esse editorial que você escreve xingando todo mundo.


Depois dessa porrada, percebi de imediato que a minha atitude havia sido autoritária e arrogante. Voltei atrás, mantive a coluna, mas a fala do Sicca ficou martelando em minha cabeça. Resolvi, então, fazer uma enquete sobre preferência de leitura. Perguntava disfarçadamente aos leitores nos Bancos, no Bar da Cida e no comércio em geral, sobre a parte do jornal que eles mais liam. Para o meu espanto, a coluna do Sicca, os aniversários, era a mais lida de todas; o meu editorial, coitadinho, realmente ficou em último lugar. Não contei nada para o Sicca. Depois, com a permissão dele, passei a publicar regularmente frases do filósofo Álvaro de Faria no meio da Coluna de Aniversários. Enquanto o jornal durou, nunca mais ninguém ousou mexer na Coluna de Aniversários.


Ainda nos anos 1980, ele, sensível com o drama do companheiro que estava impossibilitado de se locomover, e de falar, sempre pegava um exemplar recém impresso do “O Trabalho” e dizia: - Este eu vou levar pro Chaffy! Com o passar do tempo, depois de assimilar a lição, descobri que Domingos Sicca, juntamente com meu pai, Chaffy Jorge, pertenciam a um grupo seleto de personagens que foram incorporados ao patrimônio histórico do Jornal “O Trabalho”.


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(*) Esta crônica foi publicada em 2011. A sua republicação nesta edição comemorativa de 116 anos do O Trabalho, é uma forma singela de homenagear Domingos Sicca.

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