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CJC - Comunidade de Jovens Cristãos - uma história a ser lembrada

Paró Ferreira


“...os homens não são apenas eles; são também a região onde nasceram, a fazenda ou

o apartamento da cidade onde aprenderam a andar, os brinquedos que brincaram quando eram crianças, as lendas que ouviam dos mais velhos, a comida que se alimentaram, as escolas de que frequentaram, os esportes de que se exercitaram, os poetas que leram e o Deus em que acreditavam. Todas essas coisas fizeram deles o que são e essas coisas ninguém pode conhecê- las somente por ouvir dizer, e sim se as tiver sentido”.

(Somerset Maughan, O Fio da Navalha)



Assim, nos identificamos como integrantes do CJC, uma conjunção de vários aspectos que compuseram, está em nossa base e permanece muito viva conosco! Ah, é também uma grande alegria poder falar do que realizamos, vivemos e crescemos conjuntamente.


Paró Ferreira

A Comunidade de Jovens Cristãos - CJC - foi pela sigla que o grupo ficou mais conhecido. Sua origem deu-se nos anos de 1967- 68, a partir do convite do Padre Plínio Toldo, o então pároco, a alguns adolescentes e jovens que participavam aos sábados às 18h30 da Missa dos Jovens na Igreja Matriz de São Simão. As celebrações eram muito animadas e participadas, além de serem organizadas pelos próprios jovens da cidade (faziam parte da Liturgia e do grupo de Música). Fatores esses que, junto com os documentos da Igreja Católica, supomos tenham motivado o Padre Plínio a convidar um pequeno grupo, que começassem por meio de reuniões semanais, pudessem se aprofundar na fé e nos temas concernentes à adolescência e juventude. E assim se deu!


Além da formação local, as (os) participantes iam também a encontros mais ampliados nas cidades cujas paróquias pertenciam à Arquidiocese de Ribeirão Preto (SP): Santa Rosa de Viterbo, Santa Rita do Passa Quatro, Jardinópolis, Batatais, Brodowski, Ribeirão Preto e mais, outros encontros também aconteceram na própria cidade com a vinda dos jovens das cidades citadas, eram “Encontrões”, que contavam com a assessoria dos padres, Maria Aparecida Ferreira (Paró) freiras e leigas/os dessas cidades e da Coordenação da Pastoral de Juventude da Arquidiocese, sob as luzes do Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965), além

dos documentos de Medellín (1968) e Puebla (janeiro – fevereiro 1979), com a metodologia das orientações da Igreja (ver a realidade, julgar os melhores caminhos e agir para as transformações necessárias), buscando a formação efetiva na ação e no protagonismo da juventude como eixos propulsores. Neste sentido e baseados nos referidos documentos as atividades do CJC extrapolaram os estudos, reflexões, orações e projetos pessoais, foram realizadas na comunidade simonense ações pontuais junto às famílias mais necessitadas na Vila Monteiro, em parceria com o Serviço Social da Prefeitura Municipal e SESC e SENAC, que traziam materiais e orientações pertinentes aos eventos e/ou atendimentos. E, concomitantemente, vieram os trabalhos ligados às linguagens artísticas, pois como disse Simone de Beauvoir: É na arte que o ser humano se ultrapassa definitivamente. Dessa forma, e na busca de melhores caminhos para o entendimento da vida, foi elaborada e realizada a EXPASI (Exposição de Artes Simonense), na qual as (os) artistas puderam mostrar a arte genuinamente simonense, por meio de linhas, formas, cores e formatos. Inicialmente a exposição era feita na sede do Recreasta Clube e posteriormente na Casa de Cultura Grassmann. Outro evento contagiante foi o SAMBÃO (concurso entre escolas de samba de

São Simão e cidades vizinhas), com este ritmo tão peculiar do Brasil, houve uma boa animação e manifestação cultural na simoneia. Era uma festa de luzes, sons fortemente marcados. As pessoas esboçavam contentamento dançando e alegrando quem os assistia, interativamente sambavam, sorrateiramente vibravam nas sarjetas e calçadas, enquanto se davam os desfiles. Na área literária, igualmente foi muito motivador, a realização do Concurso

Literário Machado de Assis, do qual participavam adolescentes, jovens e adultos.


Bons textos e expressividades de literatura muito significativas marcaram esse evento. Como disse o próprio Machado: a literatura se dá na cotidianidade...


[...} Não posso dizer positivamente em que ano nasceu a crônica; mas há toda a probabilidade de crer que foi coetânea das primeiras duas vizinhas. Essas vizinhas, entre o jantar e a merenda, sentaram-se à porta, para debicar os sucessos do dia. Provavelmente começaram a lastimar-se do calor. Um dia que não pudera comer ao jantar, outra que tinha a camisa mais ensopando que as ervas que comera. Passar das ervas às plantações do morador fronteiro, e logo às tropelias amatórias do dito morador, e ao resto, era a coisa mais fácil, natural e possível do mundo. Eis a origem da crônica. [...]


Ah, o grupo também se dedicou a fazer teatro, saraus e sátiras. Dentre as peças destacou-se a elaborada com a maioria dos textos poéticos de autores brasileiros e portugueses (compilados e roteirizados por Fátima Moreira e João Paulino Quartarola) e musicalizada por participantes do grupo (Neusa do Carmo, Adauto Monteiro, Carlinhos Ferreira) e outras pessoas que se somaram. A peça recebeu o nome assim descrito, somente com sinais gráficos (!...? ...!!!...???...!!!), com o apelido carinhoso Ontem. Hoje! Amanhã? Eis aqui o trecho inicial do texto, cuja autoria não conseguimos localizar:


É sempre assim - no início, plena mocidade.

Nem o mundo nos enche o côncavo da mão.

Esbanjamos as horas de felicidade, na inconsciência feliz dos dias que se vão!


Outra linguagem trabalhada e muito desfrutada foi a musical! Por meio de serenata, de pequenas apresentações nos grandes encontros com outros grupos das cidades vizinhas, os sons musicais também “nutriam” a nossa alma!


A dança, igualmente foi mais uma linguagem que nos alimentava, era muito bom (e continua sendo, não é?). Foram organizados bailes no Líder Clube com a banda “Os Incríveis”, que por mais de uma vez, promoveram momentos inesquecíveis aos jovens e adultos da cidade. No início havia o show e depois se deliciavam dançando ao som da banda. As músicas preferidas eram O milionário, Perdi você, Minha Oração, Era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rollings Stones, O meu primeiro amor e muitas outras. Como disse F. Gambini.


“Ó homem, ó mulher,

aprende a dançar,

senão os anjos do céu,

não saberão o que fazer contigo!”


Ou ainda, Rubem Alves: “Aprenda a dançar com o corpo para dançar melhor com

as ideias!” Tudo isto era de grande motivação para nós!


Junto com o JUS (Juventude Unida Simonense), o grupo planejava e realizava a Semana do Estudante, no mês de julho. O frio do inverno era espantado facilmente pelo torneio dos jogos que se tornava uma festa esportiva e pelas atividades das ferrenhas gincanas culturais na cidade! Os jogos na Quadra Municipal, na Associação Simonense, na piscina do Recreasta Clube, as apresentações na sede também do Recreasta ou no Cine Oásis movimentavam as equipes e a comunidade como um todo.


Outros eventos foram organizados em ações conjuntas e nos encaminhamentos feitos pelo Conselho Superior da Juventude (composto pelos dois grupos). Esta união trazia a sensação de corresponsabilidade pela cidade, pertencimento a ela e em grande medida também o quanto ela pertencia igualmente a nós.


Todos os eventos, desde a organização à realização e depois a avaliação e todo o processo formativo foi de muito aprendizado! Os laços de amizade criados estão somente distantes, não foram desfeitos. O fazer parte dessa história, revê-la, ressenti-la, revivê-la ao escrever este texto nos permitiu ressignificar os caminhos trilhados. Tudo ficou perpassado pelas experiências individuais e coletivas numa trama feita com afeto, dedicação e construção de redes bordadas com fios invisíveis, mas firmes e fortes alinhavando o grande desejo do crescimento, da descoberta do mundo e que nos permitem hoje, tomar as lembranças trazendo a experiência do que vivemos, do que nos tocou, do que nos aconteceu. O traçado

vai delineando a permanência das raízes profundas, bem sedimentadas e valorizadas no respeito e na dignidade aos seres humanos, compondo um capital humano imensurável, ilustrado pela diversidade de mãos, cores e saberes!




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