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Pedro Sicca - Cidadão Simonense



Natalina Sicca


Para muitos simonenses era conhecido como Seu Pedrinho. Para mim, tio Pedro.


Este texto registra as memórias familiares de um imigrante italiano que foi trazido para São Simão ainda criança. Vindo da pequena San Basile, Província de Cosenza no sul da Itália na segunda década do século XX. Nosso pequeno calabrês foi acolhido em São Simão pelo tio Salvatore Sicca. Este também imigrante italiano que chegara para o trabalho na lavoura no final do século XIX. Anos mais tarde, estabeleceu uma selaria em São Simão. Este pequeno comércio é vinculado a vinda dos demais membros da família. Há registros de que em 1922 já funcionava como selaria.


O Brasil do final do XIX e início do XX prometia o milagre da modernização e da ordem na recém proclamada república. Meca de imigrantes de diferentes países. Os italianos geralmente vinham em busca de “fazer a América”. A família de pequenos agricultores na Itália, veio em busca de sustento em um País que prometia o futuro.



Pedro Sicca

Pedro Sicca foi recebido e criado pelo tio que na época era comerciante, o proprietário da selaria. Fundada com o nome “Casa Sicca" também comercializava sapatos masculinos. Após a morte de Salvatore, passou a ser gerenciada pelo sobrinho. Atualmente na terceira geração, o comércio está nas mãos de Domenica Bellizzi, esta por sua vez sobrinha do tio Pedro.


Após a Primeira Guerra, já nos anos de 1933, vieram para São Simão dois irmãos de tio Pedro, tia Anita e meu pai, Francisco.


Papai, na década de 1940, traria para o Brasil, três de seus sobrinhos que sofriam as agruras agora da Segunda Guerra e assim completaria este ciclo familiar de imigrantes. Dois sobrinhos foram morar em São Simão e um na minha casa em Ribeirão Preto. A estrutura de nossa família foi tal que não havia muita diferença entre irmãos e primos, sempre fomos todos irmãos, os cinco sobrinhos de Pedro Sicca que viveram no Brasil.


A família tem uma marca de solidariedade e cuidado com os menos favorecidos. Cada um a sua maneira, cada um com sua atitude político-ideológica. Mas essa diversidade não impede a colaboração mútua e o compromisso com a caridade.


Da vida na Itália pouco posso contar. As narrações familiares vieram sempre das mulheres. Os homens pouco se referiam à família, à vila e ao sofrimento que foram submetidos. Para piorar, Cosenza foi ocupada por diferentes povos e sua população pobre no início do século XX sequer havia sido unificada pelo italiano. A língua doméstica era uma variação do albanês (de difícil tradução). Esse dialeto da Calábria era a língua falada dentro da casa de meus tios, quando nasci em 1950. Nossos imigrantes italianos passaram a vida agradecendo ao Brasil e tentando retribuir o que aqui receberam.


A família passou por muitas tragédias que lembram os dias atuais. Minha avó faleceu logo após o nascimento de meu pai, vítima da chamada gripe espanhola que dizimou 50 milhões de pessoas no mundo - talvez mais de 375 mil italianos. Meu avô veio para São Simão fazer América em 1921. Viúvo veio a falecer logo depois de chegar a Santos sob forte desgosto por ter sido roubado por outro imigrante. Domingas e Salvatore receberam Pedro, Anita e Francisco. Todos moraram em sua casa. Domingas faleceu de modo inesperado. Apesar dos sofrimentos, uma luz iluminou nossa família e também a cidade de São Simão, assim vejo tio Pedro.


Minha narrativa passa, agora, a se basear principalmente na convivência familiar mais intensa das minhas idas de finais de semana a São Simão. Nos anos de 1960 e 1970, essas pequenas viagens mudaram minha percepção de São Simão, onde meus amigos e amigas residiam.


Não lembro de longos diálogos com meu tio. Ele sempre foi mais contemplativo do que falador. Conhecia minhas convicções socialistas, as respeitava mas continuava firme na sua missão de cuidado aos pobres por meio da caridade e do assistencialismo. Para ele havia urgência em assistir.


Tio Pedro contou certa vez à família ter tido um sonho com Dom Bosco. Este o convocara a cuidar dos idosos desvalidos da sorte. Portanto, sua missão nesta vida seria o cuidado. Cuidar dos pobres, dos idosos pobres, dos abandonados pelos antigos patrões ou familiares sem condições de mantê-los.


Além disso, também cuidava dos desesperados, benzia os doentes que vinham a sua casa em busca de oração ou de benção. Recebia diuturnamente simonenses e inclusive velhinhos do asilo, que passavam em sua loja para tomar um cafezinho ou um gole de cachaça, da melhor qualidade, pois, tinha muito cuidado na escolha das mesmas.


Era católico, mas não muito igrejeiro, e atribuía sua iluminação a Dom Bosco. Não sou muito especialista em interpretar esse lado místico de meu tio, mas pude vivenciar que sua residência era aberta a simonenses e ribeirão-pretanos que buscassem ajuda. Muitas curas foram atribuídas a ele, que dizia ser apenas um veículo de Dom Bosco. Os familiares da minha mãe sempre buscavam seus conselhos quanto a questões de saúde. Mas tio Pedro sempre dizia que poderia ajudar, mas que seguissem as recomendações dos médicos. Respeitou a ciência e era amigo dos médicos da cidade, bem como tecia uma rede de contatos com os de hospitais de Ribeirão, que auxiliariam na sua missão de cuidado dos idosos. Quando meu cunhado se formou em medicina ele o chamou e o convocou a nunca esquecer dos pobres que precisassem dele.


Gostaria de destacar o lado mais social de sua trajetória. Como membro da Sociedade Vicentina de São Simão, participou da criação do Lar Vicentino. O primeiro endereço foi na rua da entrada da cidade, mas sua sede foi transferida para o atual local. Neste, um conjunto de pequenas casas foi construído para cada uma servir a 4 ou 5 idosos. Defendia tal organização espacial pois era mais próxima do ambiente familiar.


Para ele e seus amigos, a urgência da assistência social tornava necessário que se construísse um asilo para idosos. Tio Pedro sentia que sua missão era assistir aos idosos por meio da alimentação, saúde e carinho. Junto a outros simonenses participou da construção das casas. Após o café da manhã, diuturnamente, ia ao Lar Vicentino para acompanhar as necessidades e atividades da cozinha, os idosos doentes que requeriam encaminhamento a médicos e hospitais, bem como cumprimentava cada um, para ele dizer bom dia, olhar no olho de cada um, visitar cada casa fazia parte da atenção a cada pessoa. Nos anos finais de sua vida, com dificuldade de locomoção pedia ajuda da sobrinha Domenica para levá-lo no tradicional Fuscão azul. Ela, por sua vez, continua suas idas dominicais ao asilo até os dias atuais.


Desde o início do Lar até o início dos anos de 1980, não havia subvenção estadual ou federal. Assim, nosso imigrante em sua sapiência, junto com amigos, visitava as fazendas vizinhas em busca da doação de bezerros para ser leiloados no encerramento da quermesse do mês de julho. Com as rendas da quermesse e do leilão conseguiam manter o Lar durante o ano inteiro.


Quando começou o apoio oficial por meio de subvenção estadual, foi exigida reordenação do Lar e construção de um pavilhão para abrigar os idosos. Na época, o modelo considerado adequado para maior controle e higienização do espaço. O Lar Vicentino foi reestruturado se tornando um ambiente institucional que existe até o momento.


O Lar Vicentino, a partir da década de 1980, passou a contar com nutricionista e assistentes contratados para cuidar dos idosos. Mas tio Pedro continuou sua rotina de cuidado com cada idoso até fevereiro de 1990, quando deixou o plano terrestre.


Para nós ficou a referência do imigrante que doou sua vida por São Simão. Anos antes de seu falecimento recebeu o título de Cidadão Simonense. Ele me incumbiu de agradecer aos simonenses pela acolhida e pelo Título. Palavras que o representam: cuidar e agradecer. De certa forma, esses foram traços que têm diferentes matizes nos membros da família toda.


É importante assinalar que o iluminado e caridoso Pedro teve a maior parte de sua vida o amor, o cuidado e o carinho mais próximo de sua irmã e sua sobrinha. Além da presença constante durante anos, elas ajudaram a colorir as casas da cidade e as procissões com as flores de pano que criavam e comercializavam.



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