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A neta que espiava o jornal do avô

Cláudia Maria (*)


Eu gosto de arranhar umas letras, aliás, eu só organizo meu pensamento escrevendo. Descobri esses dias que deve ser hereditário, tenho uma sobrinha que também é assim. Não sou lá essas coisas com a escrita, mas também não vou usar de falsa modéstia... sei reconhecer um bom texto e colaborei na construção de muitos leitores e escritores pela minha vida de professora. Sendo assim, engano bem, numa mistura de apreciadora e incentivadora das artes da palavra, e nessa estrada meu querido amigo João (do Chaffy), sim João, será sempre nosso amado João do Chaffy; pediu-me uma crônica pra edição comemorativa do O Trabalho.


Cláudia com o avô Pasquini

Que honra! Escolhi rapidinho uma que faz parte da minha vida de professora e hoje ele pediu outra temática de São Simão, poderia ser de meus avós imigrantes, do Vô Pasquini, por exemplo.


Ah, como tenho histórias desse vô Pasquini! Com ele aprendi ser leitora de jornal e incentivadora de leitores.


Qualquer dia escrevo sobre ele, mas vou falar sobre jornal.


O vô Pasquini assinava a Folha, Estadão e o O Trabalho, claro. Os jornais chegavam bem cedo no murinho do portão. Eu corria pra pegar. Adorava o cheiro daquele papel preto e branco, cheio de histórias, vida, tempos e territórios.


Daí eu lia com todo cuidado, o editorial e a coluna do Lourenço Diaféria. Depois arrumava direitinho o jornal e levava para o vovô. Ele separava a Folhinha, me entregava , lia todo o jornal, depois pedia pra eu verificar se a vovó Guiomar iria ler pela manhã ou depois do almoço para organizar o jornal no balcão do armazém, do lado esquerdo do caixa, bem no cantinho, no lugar onde frequentavam os intelectuais. Mais à esquerda a Folha e à direita da Folha o Estadão.


O vovô recebia ali inúmeros simonenses para ler o jornal. Ali era um local de grandes debates intelectuais e políticos e eu, ficava rodeando ali pra ouvir aqueles homens sérios, fumando cigarro e tomando café no copo, discutindo as notícias frescas. Isso era bem de manhãzinha. Os que frequentavam outros espaços do armazém, normalmente, antes do almoço, ou final da tarde eram incentivados pelo vô Pasquini a chegarem daquele lado do armazém onde o mundo se descortinava. E se não fossem, vovô pegava o jornal, bem perto do bar e lia algo que ficavam todos boquiabertos.


E tinha o O Trabalho!


Daí era numa alegria, porque o vovô depois de ler e deixar que eu lesse, comentava comigo. Eu ficava extasiada, porque isso era de uma tamanha importância de afeto, cognição e respeito, que muitos não imaginam devido ao temperamento sério, rígido, disciplinado, comprometido e às vezes até sisudo do vovô.


Com o O Trabalho, aprendi olhar a cidade do ponto de vista das organizações sociais, políticas, administrativas, econômicas da minha terra natal, com o crivo crítico de um homem do porte e quilate do vovô Pasquini. Que bom que eu tive o vovô na minha vida!


Tomara que o O Trabalho volte semanalmente, que as famílias simonenses possam ter a oportunidade de discutir a cidade com os gatilhos desse grande instrumento de construção de um mundo melhor e mais justo que é cultura escrita baseada em fatos, através do jornalismo


Inverno da Pandemia de 2020.


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(*) Claudia Maria Luciano, uma simonense em Sampa.



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