ÓRGÃO DA SEÇÃO BRASILEIRA DA 4ª INTERNACIONAL - CORRENTE O TRABALHO DO PARTIDO DOS TRABALHADORES
 
Pierre Lambert, militante operário combatente da 4ª Internacional
 
 

É impossível resumir a vida de um ser humano em poucas linhas ou páginas, ainda mais tratando-se de um militante do movimento operário internacional como Pierre Lambert, que dedicou 74 anos de sua vida à luta de classe.

O jornal O Trabalho, em honra à memória de nosso velho camarada falecido em 16 de janeiro, optou por reproduzir trechos de textos redigidos por Pierre Lambert tratando de temas importantes que eram foco de sua constante preocupação: a atualidade da revolução proletária e do combate da 4ª Internacional; o papel dos sindicatos na luta de classe; a questão nacional nos países, como o nosso, dominados pelo imperialismo; o papel do jornal como organizador coletivo da luta pelo partido da classe.

 

Pierre Lambert, trotskista desde 1936, foi militante ativo do movimento operário, tendo ocupado importantes responsabilidades sindicais no seu país de origem, a França. Internacionalista convicto e apaixonado, não dedicava menor atenção às questões da luta de classes em outros países.

O Brasil, país que visitou diversas vezes, e os militantes que aqui se organizam sobre a base do programa da 4ª Internacional, ocupou um lugar importante na trajetória militante de Pierre Lambert.

Nos limites desta apresentação destacamos que, como dirigente do Comitê de Organização pela Reconstrução da 4ª Internacional (Corqui), Lambert atuou pela unificação de quatro grupos trotsquistas que enfrentavam a ditadura militar em meados dos anos 1970, que levou à constituição da Organização Socialista Internacionalista (OSI, antecessora da atual Corrente O Trabalho) em novembro de 1976.

Já no início dos anos 1980, diante do surgimento do PT a partir da onda de greves que abalou os alicerces da ditadura militar, a contribuição de Lambert foi fundamental para que os jovens trotsquistas brasileiros decidissem integrar esse partido para lutar pela sua independência política de classe. Desde a fundação da
CUT, em 1983, não havia uma discussão sobre a situação política no Brasil em que Lambert não insistisse sobre a importância primordial do trabalho sindical em seu interior, buscando conhecer todos os detalhes da menor greve ou mobilização da classe trabalhadora. Nas questões de orientação política, como a luta pela Assembléia Constituinte Soberana para derrotar a ditadura, como a questão da necessária Frente Única Antiimperialista em defesa da soberania da nação, ameaçada de destruição, a contribuição de Lambert não foi menor.

Ao deixar o convívio de seus camaradas espalhados em todos os continentes, Pierre Lambert deixou um legado: uma organização política internacional que ancora suas raízes no movimento operário e no Programa de Transição elaborado por Trotsky para a fundação da 4ª Internacional em 1938.

Saber preservar esse legado, como instrumento de ajuda à emancipação dos trabalhadores de toda a forma de opressão, certamente, é a única homenagem que Pierre Lambert aceitaria de bom grado.


A redação

 

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“Os acontecimentos que determinaram meu compromisso”
 

PIERRE LAMBERT NARRA O INÍCIO DE SUA MILITÂNCIA (1)

Eu tinha 13 anos e meio (...). Em 12 de fevereiro de 1934 houve a greve geral. As passeatas do PC e do PS (SFIO) se uniram. Eu ignorava o que era a política do PC do “terceiro período”, que denunciava a SFIO como “social-fascista”, mas fiquei impressionado com a demonstração de unidade. (...)

Alguns jovens, pouco mais velhos que eu, estavam nas Juventudes Comunistas e me propuseram pichar muros contra o aumento do serviço militar para dois anos: “Abaixo a guerra! Abaixo os dois anos!”. Aí começou meu compromisso político. (...) Em junho de 1936 se dá a irrupção do proletariado francês, que havia sido esmagado quando da Comuna de Paris. (...) Trotsky escreveu: “A revolução francesa começou”. Eu estava totalmente de acordo. Em 1936 levantaram-se milhões. Essa foi a minha juventude, a de milhares que entraram no PCF. (...)

Em 1936, minha geração entrava no período em que, com ou sem acordo político com ele, subscrevíamos a fórmula de Marceau Pivert, dirigente da Esquerda Revolucionária do PS (SFIO): “Tudo é possível”. Todos estávamos de acordo com isso, inclusive os jovens que iriam constituir os “delegados” operários que, em sua maioria, filiariam-se ao PC. E isso no mesmo momento em que Thorez, em nome do PC, declarava: “É preciso saber terminar uma greve”.

Ao final de 1936, La Rocque, chefe da organização reacionária Cruz-de-fogo, recomeçou a fazer reuniões em salas de cinema. (...) Os TPPS (“Sempre prontos a servir”, serviço de ordem do PS) iam desalojá-los. Aí houve o massacre de Clichy, no qual rapazes e moças do TPPS caíram frente a balas da polícia. O que provocou imediatamente uma reação, pois era o governo Blum (...). A Esquerda Revolucionária reuniu-se na rua Cadet, á noite, e houve a discussão: ficamos ou vamos embora? Eu era a favor de ir embora. (...) Foi talvez o ato que me fez adquirir consciência política. (...)

A segunda coisa importante nessa tomada de consciência foi o que ocorreu em Barcelona, em maio de 1937. (...) Tinham ou não razão os revolucionários ao pegar em armas para defender as conquistas da revolução operária e camponesa de julho de 1936? Foi a primeira manifestação diretamente política independente de minha vida. Eu apoiava a insurreição, pensava que tinham razão de levantar-se contra os
stalinistas para salvar a revolução espanhola. Todos os camaradas do grupo estavam em desacordo. Confesso que, dias depois, quando li que Trotsky justificava a insurreição de Barcelona, senti-me orgulhoso!

Em 20 de agosto de 1936 (...) eu li no Humanité (do PC) as infames calúnias contra Zinoviev e Kamenev.
Foi para mim um golpe brutal.

Ao todo houve cinco acontecimentos que determinaram meu compromisso: fevereiro de 1934, junho de 1936, os julgamentos de Moscou, o massacre de Clichy e o maio de 1937 de Barcelona.


(1) Extratos de “Itinéraires”, livro de entrevistas com
Daniel Gluckstein. Editions du Rocher, París, março de 2002.