JORNAL O TRABALHO

Nº 669 – 21 de janeiro de 2010 a 25 de fevereiro de 2010

HAITI: SOLIDARIEDADE POR UM PAÍS SOBERANO

A imensa tragédia do povo irmão do Haiti, depois do terremoto no último dia 12, chama, em primeiro lugar, a mais ampla solidariedade e ajuda do movimento operário internacional.

As previsões chegam a duzentos mil mortos como conseqüência, nada “natural”, do desastre natural.

A tragédia revela um país golpeado em sua soberania. O que impediu o Haiti ter as condições para enfrentar o terremoto foi a catástrofe econômica, social e política, resultado do saque ao país promovido pelo imperialismo.

O governo haitiano paga semanalmente mais de um milhão de dólares a título da suposta dívida externa, enquanto não existem os serviços públicos e a infraestrutura - condição para que o Estado pudesse prestar socorro ao povo. Não existe um Estado soberano.

Há seis anos ocupado pela Minustah (Missão de Estabilização da ONU, sob comando brasileiro), nove milhões de haitianos, toda uma nação, estão subjugados a uma política que destrói o país. Foi o que apurou a Comissão Internacional de Inquérito, constituída na Conferência “Defender o Haiti é defender nós mesmos” (dezembro 2008), constando a inoperância vergonhosa da Minustah, face a um desastre anterior provocado por um furacão, com inundações que destruíram a cidade de Gonaive.

Aí está a raiz da profundidade trágica das consequências do terremoto.

A eloqüência do discurso humanitário que os governos que saquearam o país fazem agora é para encobrir o que buscam, aprofundar o esmagamento da soberania do Haiti, sobre os escombros da tragédia.

Há muito por trás de retórica e orçamentos de “ajuda humanitária”, o imperialismo promove a destruição das nações. Por exemplo, em 1998, o Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial exigiram que Honduras privatizasse portos, aeroportos e sistema de comunicação, como contrapartida à “ajuda” em consequência do furacão Mitch. Agora, em função da crise econômica que torrou 10 trilhões de dólares, esta política que imperialismo aprofunda.

O presidente Barack Obama convocou os ex-presidentes Bush (da guerra contra o Afeganistão e Iraque, cujo governo depôs presidente haitiano, Aristide, em 2004, iniciando a ocupação) e Clinton ( da guerra contra a ex-Ioguslávia e, desde 2009, enviado especial da ONU no Haiti) para “ficarem à frente dos esforços” após o terremoto. Esses senhores da guerra declaram: “Ficamos contentes de responder seu apelo (...) Pela primera vez, o governo do Haiti está comprometido com a construção de uma economia moderna” (OESP 18/01).

O governo haitiano entregou o controle da situação aos EUA. Em comunicado conjunto com a Secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, o presidente Préval "pede que os EUA ajudem conforme for necessário para aumentar a segurança no país” (17/01). Hillary, ao defender um decreto que desse mais poderes a Préval, explicou “o decreto daria ao governo um poder enorme que na prática eles delegariam”(OESP18/01). Aos EUA, que fique claro!

O governo Obama tomou diretamente em mãos o controle, não da reconstrução soberana do país, mas da continuidade do saque contra o povo.

Mais de 11 mil soldados estadunidenses estão em solo haitiano, controlam o aeroporto e ocuparam o que restou do Palácio do governo.

Em consonância com essa política, a ONU aprovou o envio de mais 3.500 soldados para as tropas da Minustah, cuja ocupação o ministro Jobim defende que dure, no mínimo, mais cinco anos.

O que ameça empurrar o Haiti à barbárie não são os desastres naturais, mas os dispositivos do imperialismo, agora diretamente sob comando do governo dos EUA.

Mais do que nunca, a solidariedade do movimento operário internacional para ajudar a reerguer o povo haitiano se liga à defesa de sua soberania. Mais do que nunca, “Defender o Haiti é defender nós mesmos”, os povos e trabalhadores oprimidos pelo imperialismo:

Anulação imediata da dívida externa!

Restituição ao povo da plena soberania, fim da ocupação!

O Haiti precisa de médicos, engenheiros e não de soldados!

Abertura de todas as fronteiras para os cidadãos haitianos!